“Então Pedro chegou perto de Jesus e perguntou:
- Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim? Sete vezes?
- Não! – respondeu Jesus. – Você não deve perdoar sete vezes, mas setenta vezes sete.” S. Mateus 18, 21 e 22a
Tenho acompanhado pelas mídias as discussões acerca de uma polêmica festa ocorrida na última sexta-feira (3) na Associação dos Artistas Teatrais da Região de Araçatuba – Associata e, como artista visual e escritor, com trabalho prestado à comunidade araçatubense nas referidas áreas nas últimas três décadas, gostaria de fazer algumas ponderações:
- sabemos o quanto o trabalho com arte, nas muitas linguagens, é algo difícil de se realizar no interior como um todo, e em Araçatuba não é exceção. Muitas vezes nós, artistas, colocamos a mão no próprio bolso para poder realizar as ações com as quais lidamos e a partir das quais nos movemos e fazemos outros tantos se moverem, seja na perspectiva física mesmo (cantando, dançando, interpretando, pintando etc.) ou, e creio que essa seja a mais importante, na perspectiva emocional, imaterial, intelectual. Como sabiamente afirma o poeta Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”;
- o conjunto patrimonial da Vila Ferroviária em Araçatuba, assim como tantos outros conjuntos análogos em outras cidades, está há algumas décadas, praticamente, em estado de abandono. São poucos prédios em funcionamento e, ainda assim, com ocorrências constantes em relação a arrombamentos e pequenos furtos, depredações e má-conservação por falta de verbas (públicas e privadas), entre outras razões. Podemos citar, por exemplo, o Museu Marechal “Cândido Rondon”, há anos fechado;
- os artistas da cena teatral araçatubense são dos mais organizados e ativos em nosso município, promovendo há décadas um dos festivais de teatro (FESTARA) presente em poucas cidades do interior paulista; na região Noroeste, penso que além dele, somente o FIT, em São José do Rio Preto, atraindo muitos olhares para Araçatuba, gerando renda, promovendo o intercâmbio entre as várias categorias sociais, democratizando a arte, tirando do ostracismo muita gente etc. A presença desse grupo de artistas no prédio da Associata é uma continuação do primoroso e rico serviço cultural que prestam para Araçatuba de modo gratuito e democrático, abarcando crianças, jovens e adultos;
- quem trabalha com gestão de pessoas, seja no âmbito público ou privado, sabe que nem tudo sai como o esperado, o combinado, o idealizado. Os erros fazem parte do crescimento de qualquer um e/ou instituição; o importante é identificá-los, assumi-los e buscar formas para corrigi-los, a fim de que não mais se repitam;
- a Associata errou? Ao que parece, sim. Os próprios gestores da Associação deixaram isso de modo expresso, ainda que timidamente, em seus pronunciamentos públicos, por meio das mídias sociais. E, se erraram, assumam verdadeiramente, com todas as palavras e busquem o diálogo. Só assim, penso, darão oportunidade para o que está em foco, possa ser exercitado plenamente: o perdão;
- dos males, o melhor: a oportunidade do poder público (executivo e legislativo), junto com a sociedade civil, (re)pensarem, conjuntamente, normas para cessão e uso dos equipamentos públicos, de modo a evitar novos transtornos como esse, mas que a Vila Ferroviária seja ocupada, em sua totalidade, pelos araçatubenses e para os araçatubenses, com muitas ações voltadas para as artes, para os esportes, para a assistência social e tudo o mais que faz de uma cidade algo vivo, dinâmico e seguro;
- por fim, retomo as palavras de Jesus descritas como epígrafe deste texto, ao ser questionado sobre erros e perdão: perdoar, perdoar, perdoar e perdoar. Foi justamente numa sexta-feira santa em que Ele sofreu as maiores atrocidades e perversidades; foi numa sexta-feira santa em que foi humilhado de todos os modos, seu nome usado com blasfêmia e, pouco depois, crucificado. Sofrendo o martírio da cruz, sendo, mais uma vez, ultrajado por um dos pecadores crucificado ao seu lado, liberou perdão.
Todos nós sabemos da fé e da devoção de todas as autoridades que se manifestaram com relação ao ocorrido; todos sabemos o quanto é triste ver a nossa fé e nossas crenças ultrajadas, sejam elas quais forem, mas igualmente sabemos que o exercício de nossa fé e a virtude intrínseca a ela está justamente no perdão.
Maior que uma sexta-feira santa é uma sexta-feira santa permeada pelo perdão. Penso que, passada a exaltação e calor do momento, com as manifestações de ambos os lados, o mais razoável e bom para a Vila Ferroviária, para a Associata, para a Cultura araçatubense, para Araçatuba e para os araçatubenses é que todos os envolvidos se reúnam, discutam os problemas causados pelo ocorrido e proponham os melhores encaminhamentos para todos.
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Antonio Luceni é professor e jornalista, artista visual e escritor. Cidadão araçatubense.

